As festividades do pré-carnaval de Maceió tiveram início na última quinta-feira, 09, com o Baile Municipal, realizado pela segunda vez na casa de eventos Vox Room. O evento tornou-se uma tradição na gestão do prefeito Cícero Almeida e sempre foi referência de qualidade e encantamento dos foliões. Em 2012 porém, o número de convites acabou sendo – ao que parece – maior do que o espaço da festa, o que causou incômodo aos participantes e tirou o brilho do evento.
Apesar do esmero e profissionalismo de Mamá Omena e sua equipe – que cuidam do evento desde sua primeira edição – música e decoração que estavam perfeitas, foram afetadas pelo aperto no ambiente.
Muitas pessoas deixaram o Baile mais cedo do que planejavam e os comentários no dia seguinte, tratavam mais do aperto, do que do encantamento, como foi na edição passada.
Baile Municipal na Vox Room - Lotação esgotada.
Na sexta,10, foi a vez do Jaraguá Folia que não recebeu iluminação adequada para um evento que reúne mais de 40.000 pessoas. Além da falta de iluminação a gestão do trânsito obrigava foliões a andarem por várias quadras até conseguir um taxi. Estacionar o carro era uma alternativa perigosa e cara. Flanelinhas cobravam até vinte reais pelo espaço público.
Jaraguá Folia - Falta de iluminação tira o brilho da festa.
Chegou o sábado. E à convite da prefeitura – que divulgou na grande mídia que o pré-carnaval reuniria mais de 160 mil pessoas para os desfiles dos blocos Pinto da Madrugada, Turma da Rolinha e Pecinhas de Maceió – uma multidão ocupou todos os espaços da orla.
Até as 14h30m enquanto bandas de frevo passavam seguidas por grupos de foliões fantasiados, tudo transcorria muito bem. Mas, era preciso armar um bloco com 2.000 foliões bem no meio de uma multidão de mais de 100.000 pessoas.
Cenário da avenida na hora em que os foliões das Pecinhas saíam do Iate
Era um mar de gente que impedia que o trio se deslocasse. O cantor da Banda Cannibal chegou a pedir apoio ao Bope para se posicionar à frente do caminhão do trio, para ver se a multidão se deslocava.
Antes que fosse possível subir as cordas e partir, uma briga entre dois grupos rivais começou bem ao lado do trio, entre os camarotes do Sistema O Jornal de Comunicação e do Supermercado Palato. Duas das estruturas montadas ao longo da orla e que, junto a diversos trios – em sua maioria de políticos – ajudaram a formar o cenário propício para o que se viu a seguir. Uma onda de violência que resultou em três feridos graves e muitas pessoas machucadas e em estado de pânico.
Jovem baleado durante briga no Pré-Carnaval de Maceió. Foto: Elzlane Santos.
Do alto do trio a visão do que acontecia lá embaixo era assustadora e ia causando uma sensação de horror. Especialmente no cantor da Banda Cannibal, Toninho Jucá, que chegou a dizer que não tinha condições de cantar diante de tais cenas. Ele que teve o ritmo de seu show marcado pelas paradas para pedir a presença de ambulância e policiais, hora na frente do trio, hora por todos os lados.
A Secretária de Cultura do Município, Paula Sarmento, acompanhou todo o percurso do bloco na avenida e ao final deu a seguinte declaração sobre a violência registrada: “Esse povo é assim mesmo. Essas pessoas vêm para cá com essa intenção, gerar violência. Isso é aqui e em qualquer lugar do mundo. Mas aquela confusão no início do bloco eu acredito que foi gerada porque o trio estava parado. Se o Bloco não tivesse atrasado tanto isso não teria acontecido”.
O fato é que abrir caminho para separar espaço para um trio, um carro de apoio e mais 2.000 foliões no meio de uma multidão de mais de 100 mil pessoas, não é tarefa fácil.
Durante 15 anos vimos o Maceió Fest passar arrastando milhares de foliões, mas havia uma diferença básica: O local onde os blocos eram armados, a concentração, não era no meio de uma multidão do tamanho da que se vê no Pré-Carnaval. O evento precisa ter uma lógica, que não está sendo aplicada. Primeiro se aglomera uma multidão e depois manda um trio abrir caminho. Não é assim, em Salvador e em nenhuma micareta. Qualquer um que já viu ou foi a uma, sabe disso.
Diante dos fatos ficam as perguntas.
Trios, ambulantes e um mar de gente na avenida, dificultam a armação do Bloco Pecinhas de Maceió
Isso até mesmo após homens da polícia militar terem subido ao trio do Bloco Pecinhas de Maceió e ameaçado dar voz de prisão aos músicos da Banda Cannibal, caso os mesmos não encerrassem o show imediatamente. Detalhe, a banda estava rigorosamente no horário e ainda faltavam cinco minutos para as 18h.
O trio Tutti-Frutti silenciou, mas o que estava estacionado, fazendo às vezes de um camarote ambulante, continuou ligado e com um locutor falando em alto e bom som: “vamos esperar os amigos da polícia militar, pra gente ver se eles entendem que a gente precisa levar o trio até o final da avenida. A gente não pode descer aqui”. Mas os foliões das Pecinhas podiam…
Imagem da avenida à frente do trio das Pecinhas. É possível ver um trio estacionado na avenida.
Quem pensa na ordem dos blocos? Qual é a lógica utilizada para liberar um evento com duração de 12 horas e com tão poucas atrações?
Volto a falar do Maceió Fest. O evento começava ao final da tarde e tinha que terminar no máximo pouco depois das 2h da madrugada. Na frente de cada trio ia um homem da polícia militar monitorando o ritmo do caminhão e as paradas do Bloco. Mas para cada Bloco Oficial havia um trio pipoca, que ia dando fluxo ao evento e mantendo os foliões sem abada nas laterais.
E estamos falando de trio, carro de apoio, 400 homens na corda e 4.000 foliões em cada bloco. Sem dúvida uma estrutura com muito mais condições de fazer frente à pressão exercida entre o Bloco que passa e a pipoca que se aglomera nas laterais.
Bloco no circuito Barra Ondina no Carnaval de Salvador
Agora observemos o que ocorre com o Bloco Pecinhas de Maceió. Basta olhar as imagens. Não dá pra ver o Bloco. É apenas o trio e o mar de gente.
Foto postada por Toninho Jucá na página da Banda Cannibal no Facebook
Falamos sobre isso também com a Secretária de Cultura de Maceió e ela nos disse que a organização do Pré-Carnaval havia tentado convencer o organizador do Bloco, Ednaldo Vasconcelos, a sair no domingo. Quando ele desfilaria sozinho na avenida. Mas que o mesmo não aceitou a ideia.
Mas quem determina o que é melhor para o todo? Quem define as regras?
O Maceió Fest foi tirado da Ponta Verde a revelia da opinião de seus organizadores e muitos empresários tentam até hoje realizar desfiles de blocos isolados durante o ano. Só não o fazem pela falta de liberação dos órgãos responsáveis.
Por que com as Pecinhas foi diferente?
Fica a questão.
Quem liberou o trio sem o atendimento de um quesito fundamental de segurança?
Entre os erros observados também estava a falta de segurança no trio Tutti-Frutti, que não cumpria a determinação de segurança quanto à estrutura que envolve a parte superior, onde ficam os convidados. A estrutura de ferro que faz o fechamento deve ter uma barra central e não apenas a barra superior, onde os foliões seguram.
Em 2011 o Brasil registrou algumas mortes de pessoas que caíram de trios que – assim como o Tutti-Frutti – não utilizavam a barra de segurança da forma adequada.
Por que a prefeitura todos os anos produz uma mídia convidando a população para o pré-carnaval de Maceió se o evento não é da prefeitura?
O Jaraguá Folia é capitaneado por Edberto Ticianeli, que afirma que gere o evento com esforços próprios e que conta com um mínimo apoio financeiro da Prefeitura e Governo do Estado e de algumas entidades como o Sebrae, que patrocinou uma edição anterior e o SESC que apoiou este ano. Os blocos que desfilam dizem a mesma coisa. E até a infraestrutura, que é obrigação do gestor público, deixa a desejar. As ruas do Jaraguá não receberam sequer uma iluminação especial para o evento. Basta olhar as fotos e constatar a escuridão em diversos pontos.
Conversamos por telefone com o organizador do Jaraguá Folia e ele relatou que teve sérios problemas com a gestão do trânsito, “Quando cheguei ao Jaraguá, por volta das 18h o trânsito ainda não havia sido bloqueado e tinha caminhões entrando na contra-mão. O BP TRAN não apareceu”, disse Ticianeli. Quanto a iluminação precária ele disse: “A Paula Sarmento chamou para sí a responsabilidade pelo pré-carnaval. Com toda boa vontade. Ela se esforça, mas esbarra nas burocracias. Esse ano ja tive um apoio maior. Através dela conseguimos a cobertura dos custos de banheiros químicos e dos palcos. Antes era muito pior”. Afirmou Edberto Ticianeli.
Jaraguá Folia 2012. Iluminação precária nas ruas de Jaraguá
Para o sábado a expectativa era de 160 mil pessoas. E o que elas iriam encontrar na orla?
60 bandas de frevo que passariam até às 14h e depois, restaria o trio do Bloco Pecinhas de Maceió.
Será tão difícil perceber que isso não tem como dar certo?
A maioria das pessoas sequer se deu conta do risco é verdade. Alguns já anestesiados pelo álcool, outros por não conhecerem a situação. Mas assim como as latas de cerveja chegaram
até à mesa de som – e quase queimou o equipamento, o que teria resultado na suspensão do show da Banda – poderia ter sido uma das balas. Além do risco físico. Todos foram expostos à agressão emocional, ao ter a sensação de estar isolado e sem poder sair dali. Era impensável descer do trio e insuportável continuar vendo aquilo tudo lá de cima.
Até que por volta das 17h e 30m, Toninho visualizou um dos momentos mais chocantes da tarde. Uma pessoa teve o olho furado por um espetinho. Ele parou o show e disse: “Gente assim não consigo mais cantar. Não tenho como continuar vendo essas coisas. Pelo amor de Deus. Paz. Paz”.
Logo depois um grupo com três policiais subiu no trio e ordenou que o show terminasse.
Como se a banda fosse a causadora dos problemas do dia.
Toninho Jucá, vocalista da Banda Cannibal postou a foto do trio no mar de gente e expressou seu sentimento depois do que viveu sábado na avenida.
Sinto uma emoção sem fim quando canto pra esse mar de gente. Lembro de meu Chiclete, Asa e Cia… Queria muito que a alegrria e a paz tomasse conta e nunca, jamais, a violência de uma minoria.. Queria deixar claro aqui, que em nosso coração (banda Cannibal), e tenho certeza que também nos dos diretores que fazem as #Pecinhas, bate o mesmo sentimento de tristeza e desconforto vendo tanta violencia numa avenida… Queria dar os parabéns a PM, que vi lá de cima do trio, fizeram de tudo pra conter esses animais, essas gangues. Por fim, digo que alguma coisa no meu coração (Toninho falando), diz que ainda devo cantar e fazer o que amo, pois não vou deixar que meu sonho e a alegria de um movimento tão lindo desapareça. Sei que precisa de ajustes urgente!! E as autoridades têm que agir pra gente ter nossa única festa de carnaval.. Bjo a todos, -Toninho Jucá
Veja agora a cobertura fotográfica que ninguem gostaria de fazer.
Fica aqui nossa torcida por melhores imagens no Pré-Carnaval de 2013.












